terça-feira, 14 de setembro de 2010

Mãe adotiva também pode dar o peito

Conheça mulheres que amamentaram sem nunca ter engravidado

Cristina Marinho Martins celebrou o primeiro encontro com o filho com uma olhada bem no fundo dos olhos daquele bebê. Ninou Thiago, desabotoou a blusa e ofereceu seu peito como alimento e prova de amor. Ali, diz ela, selava um pacto de cumplicidade mútua.
João Pedro foi outro protegido pela vacina natural que sai do seio materno – arma poderosa contra as doenças da infância – no instante em que conheceu a mãe Tatiane Fernandes. A mamada de boas-vindas foi rápida, mas intensa. Representou o vínculo da nova família que nascia.

Cristina e Tatiane são exemplos de mulheres que desfrutaram o gosto da maternidade por meio da amamentação com a particularidade – que para elas é só um detalhe – de nunca terem gerado uma criança. Thiago e João Pedro, hoje com 5 e 2 anos, viraram garotões saudáveis com leite materno sem nunca terem mamado em quem os deu à luz.

Os quatro não são exceções da medicina e nem representam um fenômeno raro. Os médicos descobriram que as mães adotivas podem, sim, amamentar da forma tradicional. A constatação dos especialistas começa a ganhar os lares de famílias adotivas e se transformar numa recomendação de saúde para as mães que estão dispostas a adotar.

“Antigamente a chamada amamentação adotiva era uma possibilidade cheia de mistérios, não se sabia como trabalhar, existia medo e receio”, afirma Marcus Renato de Carvalho, professor de pediatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultor em amamentação pela International Board Certified Lactation Consultants. “Hoje em dia é um método aprovado, os profissionais de saúde já dominam a técnica e divulgam essa possibilidade. Todos os meses recebo dezenas de mães adotivas querendo amamentar seus filhos tradicionalmente. Muitas conseguem.”

Empenho à luz do sol

A possibilidade de ter leite natural mesmo sem passar pela bomba hormonal trazida pela gestação começa, primeiro, com vontade e disposição de realizar o ato. Empenho é a palavra de ordem, inclusive para as mulheres que geraram os bebês, já que uma pesquisa da Fiocruz divulgada no início do ano mostrou que 44% delas falham na amamentação.

“É claro que muitos fatores são influentes na amamentação adotiva. Quanto mais nova é a criança, maior é a chance do aleitamento ser possível. Alguns medicamentos estimulam a produção do hormônio do leite, a prolactina. As massagens e o estímulo com bombas e equipamentos também ajudam a induzir o aleitamento”, pontua Carvalho.

Tatiane fez tudo o que o médico indicou e também tomou sol nos bicos do peito, técnica que funciona para preparar a mama - já que a aréola não é preparada pela pigmentação trazida pela gravidez.

"Mas nada foi tão estimulante quanto enxergar as transformações resultantes da insistência de oferecer o peito à boca do João Pedro", conta.

O nenê sugava o alimento – que primeiro saia ralinho e depois ficou mais espesso – dormia um sono gostoso e crescia a cada dia. Ao mesmo tempo, ela esquecia das mamas doloridas, suportava o cansaço das noites mal dormidas e experimentava a sensação plena de ser mãe em cada mamada.

“Soube aos 14 anos que não poderia gerar uma criança por um problema no sistema reprodutivo. Mas nunca duvidei que seria mãe.” A amamentação deixava a convicção de Tatiane explícita a qualquer um que fazia uma visita ao recém-chegado João Pedro.

As vantagens

As mães Cristina e Tatiane tiveram algumas vantagens que contribuíram para o êxito da amamentação dos filhos não gerados em seus ventres. Elas não engravidaram, mas tiveram um tempo para se preparar para a chegada de seus bebês. “No meu caso”, explica Cristina Martins, “sabia que não poderia engravidar. Minha irmã fez a inseminação artificial com o sêmen do meu marido. Acompanhei de perto a gestação e durante todo o processo estimulei as mamas. Quando o Thiago nasceu, eu já tinha leite”, conta.

Já o filho de Tatiane foi gerado por fertilização in vitro no ventre da avó materna. “Durante a espera do João Pedro, eu até engordei junto! Só não tive enjôo, mas o resto senti na pele”, conta ela, que refere à gestação da mãe, na época com 42 anos, como “a nossa gravidez”.

Recomendação universal

Mesmo que não conheçam a mãe biológica dos filhos do coração, todas as mães adotivas podem tentar amamentar, recomenda a pesquisadora do Instituto de Saúde de São Paulo e uma das principais referências em amamentação do País, Marina Ferreira Réa.

“Não dá para atestar que todas terão sucesso. Se o bebê chega com mais de quatro meses, por exemplo, o processo é ainda mais lento, mas não impossível", informa, incentivando a persistência. “É sempre bom lembrar que o leite materno de uma mulher que engravidou tem a mesma qualidade do leite produzido por uma mulher que estimulou a amamentação. Os dois tipos são essenciais para criança, completos e uma forma bem eficiente de criar vínculo entre mãe e filho.”

Fórmula mágica

Tatiane diz que tentaria amamentar João Pedro todos os dias, mesmo que o leite não saísse. “Já iria valer só pelos momentos que tivemos juntos, aquela hora só nossa, tão importante para a nossa relação.” Cristina é adepta da mesma teoria e o especialista da UFRJ Marcus Renato Carvalho não tem só as evidências científicas para aplaudir a persistência de todas as mães adotivas que vão ao seu consultório querendo alimentar seus filhos. "É uma experiência pessoal", arremata.

Após o término da entrevista, Carvalho confidenciou ao Delas que é a prova viva da possibilidade do aleitamento materno adotivo. Aos 11 anos de idade, Carvalho descobriu que era adotado "sem drama”, afirma. Ao saber a origem da sua história um outro capítulo foi revelado: sua mãe adotiva, durante as longas noites embaladas pelo choro interminável daquele garoto rejeitado pela mãe biológica, ofereceu o peito como tentativa de alento. Marcus Renato Carvalho mamou.

O médico que hoje ajuda mães "do coração" a amamentar seus filhos, autor de vários livros sobre o tema e pesquisas na área, é um exemplo de que a amamentação por mães que nunca engravidaram é um sonho possível. Ele descobriu isso lá nos anos 50, época em que nem mesmo a medicina, sua devoção futura, tinha se convencido desta possibilidade.

Os passos do aleitamento da mãe adotiva

- Se vai adotar uma criança e deseja amamentá-la tradicionalmente, informe isso ao seu médico

- O processo é lento e requer empenho. Faça massagens nos seios, tome sol com eles descobertos (fora dos horários de sol intenso) e também se informe sobre os aparelhos que fazem o bombeamento das mamas com foco na estimulação.

- Com orientação médica, há a possibilidade de usar medicações que estimulem a produção de prolactina, hormônio do leite materno

- Nos bancos de leite, são mais de 150 espalhados pelo País, os profissionais são habilitados a dar informações sobre isso. Veja os endereços

- Ao iniciar a amamentação, é possível que o bebê precise de complemento na alimentação. Uma técnica é usar uma sonda bem fininha. Coloque uma ponta das sondas no copo e a outra próxima ao bico do seu seio. O nenê ao mesmo tempo que suga o peito, recebe o leite do copinho. Com o tempo e estímulo, ele vai passar a beber menos do copo e mais do peito

Teste pode identificar alto risco de complicação na gravidez

Marcadores no sangue poderiam apontar risco de pré-eclampsia, condição potencialmente fatal para a mãe.
Algumas mulheres podem ser particularmente vulneráveis a súbitas e algumas vezes perigosas altas na pressão sanguínea durante a gestação, um quadro conhecido como pré-eclampsia.

Agora, cientistas afirmam ter desenvolvido um método para predizer quais mulheres são mais propensas a ter pré-eclampsia na etapa final da gestação – bem antes de aparecerem os sintomas do problema.

A abordagem se baseia no perfil metabólico de cada mulher e consiste em detectar a presença de metabólitos – substâncias produzidas e excretadas pelo organismo – no plasma sanguíneo. Os cientistas acreditam que a presença dessas substâncias poderia fornecer uma boa indicação do risco de pré-eclampsia.

Ao todo, foram identificados 14 diferentes metabólitos a serem monitorados durante os primeiros estágios da gestação, reportou um grupo de pesquisadores na revista científica Hipertensão.

Embora sejam necessários mais estudos para comprovar a eficácia do teste e incorporá-lo à prática clínica, esse grupo de biomarcadores poderia servir como uma pista bastante precisa sobre se as futuras mamães estão ou não sob risco significativo de desenvolver pré-eclampisa na gravidez.

“Tudo o que sabemos sobre essa condição nos sugere que as mulheres não adoecem e têm pré-eclampsia apenas no final da gestação. O problema provavelmente é originado nos estágios iniciais da gravidez” afirma a líder do estudo, Louise C. Kenny, professora de Ginecologia e Obstetrícia do Centro de Pesquisas Anu, da Universidade de Cork, na Irlanda.

“Para desenvolver estratégias de prevenção e tratamento eficazes – nosso maior objetivo – precisamos conseguir iniciar o tratamento nos estágios iniciais da gravidez. Temos de conseguir dizer quem está sob maior risco e quem não está.”

Pré-eclampsia é uma condição potencialmente fatal, caracterizada por pressão alta e altas taxas de proteína na urina da mãe. Essa condição afeta cerca de 5% das gestantes e é uma das principais causas de morte materna em todo o mundo.

“Trata-se de uma grave síndrome associada à gestação, que gera hipertensão na mãe, pode causar desmaios e até problemas mais graves” explica Jenifer Wu, ginecologista e obstetra do Hospital Lenox Hill, de Nova York.

“O único tratamento possível é fazer o parto. Devido ao alto risco para a vida da gestante, alguns bebês precisam nascer muito antes do tempo, o que aumenta também os riscos de morte da criança” acrescenta Wu, que não está ligada à pesquisa irlandesa.

A pré-eclampsia ainda não foi totalmente compreendida pelos médicos. A suspeita mais estabelecida hoje é de que o problema seria originado a partir de um defeito no desenvolvimento da placenta, que ocorreria nos estágios iniciais da gestação e permaneceria sem detecção até a segunda metade do período gestacional.

Identificar as mulheres com mais risco de desenvolver o problema já nos primeiros meses de gestação seria algo extremamente útil. Buscando uma ferramenta de detecção viável, Kenny e seus colegas voltaram seus olhos para 7 mil mulheres que estavam participando de um estudo internacional sobre primeiras gestações.

Os autores primeiro testaram o grupo de biomarcadores em 60 participantes, todas saudáveis, mães pela primeira vez e – até onde se sabia – com risco baixo para pré-eclampsia, mas que desenvolveram o problema no final da gestação. Estas mulheres, que eram, em sua maioria, neozelandesas bancas de 30 anos, tiveram suas amostras de sangue analisadas 15 semanas depois da concepção. Todas, os pesquisadores descobriram posteriormente, tinham em seu sangue os 14 biomarcadores metabólicos que indicariam o maior risco para o problema. Os resultados destas participantes foram comparados com os de mulheres com a mesma idade, grupo étnico e Índice de Massa Corporal (IMC), mas que tiveram gestações sem a complicação.

A equipe testou o método de diagnóstico metabólico em outro grupo de mulheres na Austrália, que eram ligeiramente mais novas e mais diversas etnicamente. Entre as que desenvolveram pré-eclampsia, 39 tinha os mesmos 14 biomarcadores metabólicos apresentados pelas neozelandesas.

“Com esse conhecimento, mais vigilância e mais intervenções poderão ajudar a melhorar o prognóstico para bebês suas mães com o problema” disse Wu, aplaudindo a pesquisa da colega irlandesa.

Para Arun Jeyabalan, professora assistente do Departamento de Ginecologia, Obstetrícia e Ciências Reprodutivas do Hospital Feminino Magee da Universidade de Pittsburgh (EUA), a possibilidade de identificar precocemente a pré-eclampsia é um grande avanço. A médica, no entanto, lembra que a pesquisa ainda está em seus primeiros passos.

“Espero que isso seja testado em outras populações para confirmar se os resultados são generalizáveis. O mais empolgante sobre esses biomarcadores é que eles podem realmente acabar iluminando as causas do problema” diz a especialista.

Enquanto isso, o trabalho por fazer está em pleno progresso, contam os pesquisadores.

“Nos próximos cinco anos nossa meta e desenvolver um exame de sangue simples, que possa ser disponibilizado a todas as gestantes, para detectar o risco de pré-eclampsia ainda no início da gravidez” afirma o co-autor do estudo, Phil Baker, da Universidade de Alberta, no Canadá.